Senhor compositor que faria 60 anos em 4 de abril, Cazuza é poeta ainda vivo e atual

O tempo não para e, no entanto, Agenor de Miranda Araújo Neto (4 de abril de 1958 – 7 de julho de 1990), o Cazuza, nunca envelhece aos olhos do público. É que Cazuza saiu precocemente de cena, aos 32 anos, deixando cristalizada no universo pop brasileiro uma imagem eternamente jovial, rebelde, de roqueiro indomado pela própria natureza exagerada. Na próxima quarta-feira, 4 de abril de 2018, Cazuza faria 60 anos de vida. É difícil imaginá-lo um senhor de idade. Mas o fato é que, se 28 anos após a saída de cena de Cazuza ainda se fala dele e ainda se canta a obra dele, é porque Cazuza foi um senhor compositor, dono de obra que tampouco envelhece. Essa obra reverbera em discos e shows que celebram o 60º aniversário de nascimento do artista. No exato dia do aniversário, Rogério Flasino e Wilson Sideral subirão ao palco do Circo Voador (RJ) na cidade natal de Cazuza, no picadeirocarioca que foi o primeiro cenário da consagração nacional do astro do pop brasileiro dos anos 1980, para cantar o repertório de Agenor com intervenções de Caetano Veloso (cantor que em 1983 chamou a atenção do público conservador da MPB para a poesia latente no cancioneiro de Cazuza) e de Bebel Gilberto (parceira de safra juvenil de 1986 que rendeu hits como Preciso dizer que te amo). Mais para o fim do mês, em 27 de abril, Roberto Menescal, Leila Pinheiro e Rodrigo Santos estreiam, também na cidade do Rio de Janeiro (RJ), show em que trazem o repertório de Cazuza para o universo da bossa nova – projeto que irá gerar CD e DVD. Faz parte do showbiz evocar a saudade dos ídolos que já saíram de cena. Contudo, se o poeta está vivo, como nunca deixou de estar desde 1990, é por conta da obra gravada ao longo dos anos 1980. Discos póstumos hão de pintar por aí, inclusive um com letra inéditas de Cazuza musicadas por nomes como Leoni e Bebel Gilberto, mas o que Cazuza deixou gravado em vida já é suficiente para que o poeta seja admitido no panteão dos grandes compositores da música do Brasil.

(Foto: Reprodução / Site oficial Cazuza)

Cazuza se projetou no universo do rock dos anos 1980, mas nasceu no berço da MPB, filho de João Araújo (1935 – 2013) – desde os anos 1960 um dos mais importantes executivos da indústria fonográfica do Brasil – e de Lucinha Araújo, a supermãe que se tornou ativista, zelando na Sociedade Viva Cazuza pela saúde e inclusão social de crianças infectadas com o vírus da Aids. Essa vivência no seio da MPB, e da música que veio antes dessa MPB, influenciou Cazuza. Tanto que houve inusitado elo entre Cazuza e Maysa (1936 – 1977), cantora e compositora de personalidade igualmente exagerada que quebrou barreiras machistas nos anos 1950. Não por acaso, circula na web, na voz de Cazuza, registro extra-oficial do samba-canção Diplomacia, lançado por Maysa em disco de 1958, no ano em que Cazuza nasceu. Quando sentenciou que “o banheiro é a igreja de todos os bêbados”, em versos do blues Down em mim (1982), Cazuza parecia atualizar o discurso desses mestres da dor-de-cotovelo, como Maysa e o compositor Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974), aludindo ao mesmo tempo a uma música (dos anos 1920) reavivada no repertório da também exagerada Janis Joplin (1943 – 1970), Down on me. Na alegria ou na tristeza, Cazuza foi fundo, como um poeta beatnik que vagava pelos bares do noturno Baixo Leblon à procura de um algum sentido na vida louca vida. Pode ter pecado por excessos, nunca pela falta, rimando poesia com rebeldia a mil por hora, consciente de que o tempo não para e tampouco espera por alguém. Com lirismo e passionalidade, Cazuza expiou dor de amor e celebrou o prazer do sexo (e da própria vida urbana), mas também tocou nas feridas sociais, como a infância vivida no abandono das ruas, poetizada nos versos de Milagres(1984, em parceria com Roberto Frejat e Denise Barroso). Ao ver a cara da morte, o poeta pareceu também ter se defrontado também com outras realidades da vida que lhe seria breve. Foi quando aguçou a visão crítica do Brasil (perfilado no homônimo samba roqueiro de 1988 que Cazuza assinou com George Israel e Nilo Romero) e do próprio ser humano, cuja miséria foi impiedosamente retratada nos versos do Blues da piedade (1988, parceria com Frejat). Enfim, é clichê recorrer ao verso-título da canção-tributo de Frejat e Dulce Quental, O poeta está vivo (1990), mas, sim, Cazuza está tão vivo quanto atual no mês em que festejaria 60 anos de vida breve. (G1)

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