Anatália, presente! Ditadura, nunca mais!

Anatália de Souza Alves de Melo: morte cruel (Foto: reprodução)

Há 55 anos, em 1° de abril de 1964, os brasileiros acordavam ao som do pisar dos coturnos e do roncar dos tanques nas ruas de algumas das principais cidades do País. Deposto o presidente da República João Goulart, os militares, com apoio das alas conservadoras e reacionárias do Congresso, impunham ao País um regime autoritário, perverso e cruel. Um pesadelo que duraria 21 anos, marcado por perseguições, torturas e muita morte.

A liberdade agonizaria em praça pública em breve.

Incomodados com as propostas sociais do governo João Goulart, como a abertura à reforma agrária e uma política de governo justa com os mais pobres, os militares, com apoio de setores civis conservadores, tramaram a derrubada do presidente sob a cortina de fumaça do “Combate à ameaça comunista”. Fumaça que, ridiculamente, paira nas mentes dos que hoje governam o País, mais de cinco décadas depois.

Ainda contamos os nossos mortos e procuramos os nossos desaparecidos. Na conta dos militares, uma lista de jovens e adultos assassinados sob a acusação de se rebelarem contra o sistema vigente. Na ânsia de matar, o regime não poupava ninguém. Todos eram suspeitos. A morte batia à porta. Até de quem nem estava envolvido na luta armada.

Com apenas 28 anos, a potiguar Anatália de Melo Alves foi uma destas vítimas. Presa em dezembro de 1972, em Gravatá/PE, ao lado do marido Luiz Alves, foi submetida a dias de tortura e violência sexual. Em 22 de janeiro de 1973, foi encontrada morta, na delegacia do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em Recife, onde estava presa com o companheiro.

Apontada como suicida pelos militares, Anatália foi morta por estrangulamento, após diversas sessões de tortura e abusos sexuais. Um laudo feito em 2014 pela Comissão da Verdade Dom Helder Câmara corrigiu o erro histórico, atestando como homicídio a causa da morte e não suicídio por enforcamento, como teriam simulado os seus assassinos.

Casada com o bancário Luiz Alves, integrante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Anatália nunca se envolveu na luta armada.

Pelo casamento, colocou em risco a sua vida acompanhando o marido na fuga de Mossoró, após o aumento das perseguições contra os movimentos de esquerda no Brasil, a partir de 13 de dezembro de 1968, com o Ato Institucional N° 5, o temido AI 5. Clandestinos, se instalaram em cidades do interior pernambucano, prestando apoio às ligas camponesas organizadas, que se configuravam numa forte ameaça ao regime pela capacidade de articulação política no campo e pressão social.

Enquanto Luiz Alves atuava na articulação da luta armada junto aos seus companheiros, Anatália prestava apoio no processo de alfabetização dos agricultores e seus filhos. Quando necessário, ajudava no tratamento e cuidado dos feridos na luta.

As prisões e mortes de líderes  importantes do PCBR mostravam a Anatália e Luiz – ou Marina e Maia, nomes adotados pelo casal por questões de segurança – que o cerco se fechava.

Em dezembro de 1972, o que eles temiam aconteceu. Descoberto pela polícia, Luiz Alves foi preso junto com um companheiro e horas depois veria a esposa chegar algemada à viatura policial em que ele estava.

As torturas em ambos começaram no Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em Recife, para onde foram levados imediatamente. De choques e pau de arara, tudo foi usado por seus algozes para que o casal entregasse informações sobre aqueles que estavam em liberdade. Vinte e seis dias depois foram levados para o Departamento de Ordem e Política Social (DOPS), na capital pernambucana.

Mesmo sem a experiência da luta armada, Anatália mantinha-se firme no silêncio sob o sofrimento cruel da tortura. Colocada ao lado do marido numa sala, na frente de um policial, depois de mais uma sessão de violência, pediu autorização para dar um beijo no companheiro. Com a permissão, aproximou-se do ouvido de Luiz e se limitou a dizer: “Não entreguei ninguém”.

Dias depois, teria a vida encerrada pela força autoritária, violenta e desumana do regime iniciado naquele 1º de abril de 1964. Em mais uma atitude covarde, seus algozes simularam um enforcamento, colocando o corpo de Anatália pendurado pelo pescoço, com a tira de couro de sua bolsa, no banheiro. Entre suas pernas, queimaduras já levantavam a suspeita de uma forma de encobrir a violência sexual a que era submetida.

Em 2014, a justiça autorizou a confecção do novo atestado de óbito de Anatália, a pedido da família, reconhecendo sua morte como mais um homicídio praticado pelo estado durante a ditadura militar. Falta identificar os executores.

No dia de hoje, faz-se importante lembrar a história de todos aqueles que tiveram a vida tomada por defender a sobrevivência da democracia no País. Lembrar de todas as pessoas que sofreram para que hoje pudéssemos viver sem a imposição de um regime de exceção.

Mais que isso, é necessário ter consciência do que este período sombrio da história representou. E saber que os que insistem em ver motivos para comemorar o golpe civil-militar de 64 são descendentes da onda fascista que ainda permanece entre nós.

Todos eles têm as mãos sujas de sangue. E não serão perdoados pela história.

(Esdras Marchezan)

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