A lição de Canudos

A palavra favela é de origem botânica, e dá nome a um arbusto existente na caatinga, da região Nordeste do Brasil. Presente em todos os Estados desta região.

Bastante conhecida dos combatentes do Exército na inglória e desumana luta contra os tabaréus de Canudos. Assim definiu Euclides da Cunha a coreografia daquele ambiente: “Uma elíptica curva fechada ao sul por um morro, o da favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o Arraial de canudos”.

Quando os sobreviventes da matança que dizimou aquele Arraial voltaram para a Capital da República, não receberam o prêmio prometido. Ou os prêmios. Um deles fora a promessa de moradias dignas. Mas o governo já nascera mentiroso, daquele aos tempos de hoje.

Conseguiram com o Ministério da Guerra uma autorização precária para a edificação de barracos no Morro da Providência. E o aglomerado foi subindo, enquanto a dignidade ia baixando. Os moradores começaram a observar semelhanças entre aquela encosta com o Morro da Favela, lá de Canudos.

Daí para dar-lhe o mesmo nome foi só uma comparação, quase metafórica. Em vez de faveleiras, barracos. No lugar de tatus, veados e juritis, comuns na caatinga, farrapos humanos. Estava ali, a rememorar atrocidades e mentiras oficiais, o Morro da Favela, transferido do sertão nordestino para a beira do mar carioca.

Canudos nunca foi vencido nos embates internos. Foi destruído, dizimado, de fora para dentro. Lá, na sua capilaridade, ninguém derrotou Canudos. Nos arredores de suas tocaias, no emaranhado dos seus becos e toscas ruas, Canudos era invencível. Qualquer semelhança com as Favelas cariocas será mera coincidência ou uma brutal metáfora da História?

As forças armadas sofreram três derrotas seguidas, em Canudos. A terceira foi confiada ao coronel Moreira César, figura simbólica da arrogância militarista.

Ainda jovem, ele chefiou o assassinato do jornalista Apulcro de Castro, (na Rua do Lavradio, em 1884), editor do jornal “O Corsário”, que não poupava a vida pessoal dos seus criticados. A informação de que o coronel era filho de um padre, cuja filiação o militar escondia, foi o estopim da sua participação no linchamento.

O mesmo coronel teve papel de relevo na Revolta da Armada, sublevação da Marinha contra Floriano Peixoto. E depois se destacou na luta contra os federalistas, no Sul do país, sob o comando de Gumercindo Saraiva. Tendo inclusive participado da execução do Barão do Cerro Azul, amigo de Gumercindo.

Uma expedição com essa chefia faria tremer qualquer revoltoso. Porém, para Canudos a vida era apenas um intervalo para reencontrar o paraíso de D. Sebastião.

Não havia o Estado em Canudos. Nem escolas, hospitais ou saneamento. Era uma república mística e rústica. De rosários, raízes e bacamartes.

E lá, Moreira César encontrou a morte mais estúpida. O terror dos inimigos, mesmo bem armados, tombou atingido por fragmentos de flandres e cabeças de prego, disparados por um bacamarte, apontado por um tabaréu.

A se continuar na maluquice dessa metáfora, imagine a diferença entre as armas de Canudos e o armamento dos traficantes das favelas de hoje.

Não se derrota a bandidagem de uma favela por dentro dela, no Rio ou em qualquer lugar. Conquista-se com urbanização; escolas, hospitais, lazer, esporte, cultura, saneamento e policiamento eficiente.  Policiamento eficiente pressupõe policiais honestos e bem remunerados.

Ou então se destrói por fora, como se fez em Canudos. Criando inúmeras hiroshimas tupiniquins, pois as grandes cidades estão cercadas de Canudos por todos os lados.

Quantas expedições armadas serão derrotadas nas favelas, sem que se aprenda uma lição ensinada em fins do Século Dezenove?

Té mais. (François Silvestre)

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